36% dos motoristas de aplicativo se afastaram do trabalho por conta da pandemia

Nos últimos anos houve um aumento expressivo de pessoas que trabalham através de aplicativos digitais. Um caso emblemático desses trabalhadores são os motoristas de aplicativo que hoje povoam as ruas das grandes cidades de todo mundo.

A pandemia do novo coronavirus impactou fortemente no trabalho desses motoristas, dado que as medidas de distanciamento social reduziram significativamente a mobilidade espacial da população. Detalhamos o impacto da pandemia sobre o trabalho dos motoristas de aplicativo com base em diferentes fontes de informação.

As análises mostram que houve perda significativa de rendimento para esses trabalhadores, além do aumento da exposição ao risco de contrair a doença.

 

Nosso cotidiano tem sido permeado cada vez mais por aplicativos que operam através da internet. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas que passam a realizar suas atividades profissionais em aplicativos de plataformas empresariais. Estima-se que atualmente haja em torno de 50 milhões de trabalhadores digitais (gig workers) em todo o mundo[1]. Um dos exemplos mais emblemáticos desse tipo de trabalho são os chamados “motoristas de aplicativo”. No Brasil eles atuam majoritariamente através da Uber e da 99 App. Fundada em 2009 na Califórnia, a Uber chegou ao Brasil em 2014 e afirma possuir mais 600 mil motoristas cadastrados no país. Já a 99 App foi fundada em 2012 no Brasil, tendo sido adquirida em 2019 pela chinesa DiDi Chuxing. A empresa afirma ter o mesmo número que a Uber em termos de motoristas ou taxistas atuando em seu aplicativo.

Completamente imbricas no tecido de nossas grandes cidades, essas plataformas reorganizaram nos deslocamos atualmente, além de se tornarem cada vez mais uma opção de auferir rendimento para centenas de milhares de trabalhadores. Contudo, a deflagração da pandemia do novo coronavirus e as medidas de distanciamento social impactaram fortemente no trabalho dos motoristas de aplicativo, ao reduzirem fortemente os níveis de mobilidade diária da população. Muitos motoristas perderam parte significativa ou mesmo a totalidade de seus rendimentos, enquanto muitos expuseram-se perigosamente ao risco de contrair a covid-19.

A equipe do Observatório Social da Covid-19 analisou os dados da PNAD-Covid do IBGE, na tentativa de mensurar o impacto da pandemia sobre os motoristas de aplicativo do país. Também foram analisados dados de Pnad anteriores, buscando captar tendências da atividade nos últimos anos.

Segundo a PNAD 2011, haviam 614 mil condutores de veículos para transporte particular que trabalhavam por conta-própria no Brasil, número que se manteve praticamente estável até 2015, quando foram registrados 643 mil trabalhadores na mesma condição. Nos anos seguintes, com a chegada dos aplicativos de transporte houve um enorme crescimento do número de trabalhadores do setor.Na PNAD-Contínua de 2019 foram registrados 1.145 mil condutores de automóveis, caminhonetes e motocicletas que trabalhavam por conta própria, indicando um aumento de mais de 500 mil trabalhadores no período. Na PNAD-Covid referente a abril de 2020 foram enumerados 1.124 mil trabalhadores por conta-própria na categoria motorista de aplicativo, taxi, de van, de mototáxi ou de ônibus[1].

A PNAD-Covid mostra claramente o impacto da pandemia sobre os motoristas de aplicativo. No primeiro mês da pandemia, 36% desses trabalhadores estavam afastados do trabalho. Ou seja, mais de um terço dos motoristas perdeu sua fonte de renda naquele momento. Apenas ambulantes, cabeleireiros, manicures, cozinheiros, garçons e professores apresentaram percentuais mais elevados de trabalhadores afastados em abril

Entre aqueles motoristas que continuaram trabalhando, a média de horas trabalhadas por semana, que era de 45 horas, caiu para 20 horas em média. Trabalhadores de outras ocupações tiveram uma redução de 39 para 27 horas semanais de trabalho com a pandemia. A tabela abaixo mostra o rendimento médio auferido por esses trabalhadores ao longo do período de análise, em comparação com o restante dos trabalhadores.

Rendimentos nominal e real auferido pelos motoristas que trabalhavam por conta-própria, e proporção do rendimento médio de outras ocupações – Brasil, 2011 a 2020.

Fonte: IBGE, PNAD 2011, PNAD 2015, PNAD-Contínua 2019 e Pnad-Covid 05/2020. Podemos perceber que mesmo antes da pandemia o rendimento dos motoristas de aplicativo era inferior a média de mercado, ainda que eles trabalhassem 6 horas a mais em média do que os outros trabalhadores. Segundo as PNADs, houve perda de 12% do rendimento dos trabalhadores desse setor entre 2015 e 2020, fenômeno agravado pela pandemia. Em abril de 2020 o rendimento médio dos motoristas equivalia a menos de 80% da renda média do trabalho no país.

Em termos de características pessoais, as pesquisas indicam que apenas 7% desses motoristas eram mulheres. Apesar de baixo, tal percentual é mais do que o dobro daquele que representa as mulheres entre os motoristas empregados nos setores público ou privado, de apenas 3%. Poucos desses motoristas tinham mais de um trabalho (8%), indicado sua dependência em relação ao trabalho com os aplicativos. Em relação à contribuição para a previdência, apenas 32% deles afirmaram contribuir para o INSS no período. Dezoito porcento dos motoristas tinha nível superior completo.

O projeto de pesquisa Novas Sociabilidades na Era Digital, realizado no Departamento de Sociologia da UFMG, vem acompanhando um grupo de motoristas de aplicativo em Belo Horizonte e mostra com mais detalhes os impactos da pandemia sobre sua atividade.

A pesquisa mostra que os motoristas entrevistados se depararam com duas situações distintas no início na pandemia. Aqueles que tinham outras fontes de rendimento ou alguém na família que conseguia manter a renda domiciliar pararam imediatamente de trabalhar assim que foram decretadas as medidas de distanciamento social na cidade, na semana do dia 18 de março. Além desses casos, os pertencentes ao grupo de risco da doença ou que se sentiram ameaçados pela epidemia também pararam de trabalhar imediatamente . Uma entrevistada inclusive relatou que teve várias crises de ansiedade que a impediam de sair para trabalhar.

Um outro grupo de motoristas afirmou que não podia parar, dado que dependia do trabalho com o aplicativo para sobreviver. Acrescentaram outra camada de risco ao seu dia-a-dia, em adição aos recorrentes relatos sobre incerteza quanto ao rendimento e insegurança em relação a assaltos aos quais se consideram expostos.

Os motoristas afirmam que foi necessário trabalhar mais horas para tentar ganhar no máximo o que recebiam no período pré-pandemia. Segundo um motorista, “mesmo que ficasse o dia todo na rua, não conseguia “fazer” nem cinquenta reais. E desses cinquenta reais teria que tirar ainda o dinheiro para se alimentar e arcar com combustível.”

Os dados mais recentes do acompanhamento dos motoristas, referente a outubro, mostram que muitos deles voltaram a trabalhar. Seus rendimentos, contudo, permanecem à mercê dos decretos sobre funcionamento do comércio, e assim devem permanecer enquanto durar a pandemia.

Em síntese, tanto os dados das pesquisas domiciliares como o projeto de pesquisa desenvolvido na UFMG mostram as principais facetas do trabalho digital: sua enorme vulnerabilidade em relação a aspectos conjunturais, vivendo em uma situação em que se sobrepõe diversos níveis de insegurança, tanto em relação aos rendimentos quanto à segurança e, recentemente, quanto aos perigos de adoecimento. A contínua precarização das condições de trabalho que vem ocorrendo ao redor do mundo todo e que tem sido acelerada pelo trabalho em plataformas digitais parecem ter ganho um novo impulso com a pandemia do novo coronavirus.

O trabalho nas plataformas digitais tem sido impulsionado pelas crises econômicas que assolam os países nos últimos anos e as evidências indicam que nos próximos anos haverá ainda mais trabalhadores migrando para o trabalho de plataforma. Previsões recentes do FMI indicam que deverá haver uma deterioração do mercado de trabalho nos próximos anos, principalmente com fechamento de pequenas empresas, em decorrência da pandemia. É exemplar a perspectiva do presidente da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis, setor altamente correlacionado ao trabalho de aplicativos de transporte: “a gente sabe que o número de desempregados vem aumentando no dia a dia, e os aplicativos de transporte são uma maneira das pessoas conseguirem alguma renda”[3].

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