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Gari de S. Joaquim da Barra, demitido, esbanja felicidade e é destaque no “Estadão”

Wilson Oliveira perdeu o emprego depois de doze anos na mesma profissão: 'eu sinto saudades de trabalhar no caminhão do lixo'.

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“Eu amo o caminhão do lixo assim como eu amo minha família”, desabafou Wilson Oliveira, 38, sobre a sensação de trabalhar há doze anos com limpeza urbana, em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo.

Ele ganhou popularidade nas redes sociais depois de postar uma foto pedindo aos cidadãos mais bom senso no descarte do lixo há um ano. No entanto, o tempo passou e a situação não mudou. Em maio deste ano, depois de se machucar diversas vezes, o ex-gari foi perfurado por uma agulha que lhe deixou paralisado na cama por dez dias.

“Achei que eu tinha perdido meu braço. Chorei muito e desanimei depois daquilo, porque muitos brasileiros ainda não entendem o perigo disso”, recorda. “Tenho a impressão de que trabalhar, às vezes, é correr o risco de morrer por causa de pessoas inconscientes”.

Wilson, que estudou até a quinta série, explica que o ideal é levar esse tipo de material aos postos de saúde, por se tratar de resíduo hospitalar. “Caminhão passa nas ruas para recolher lixo doméstico. Além do mais, caco de vidro tem de ficar numa caixa de papelão; lâminas e palitos pontiagudos devem estar dentro de uma garrafa pet”, aconselha.  O descarte incorreto pode transmitir hepatitediabete e até aids.

Devido ao incidente, a empresa onde trabalhava lhe deu férias de um mês para repousar e tomar um coquetel de medicamentos. Quando voltou no começo de julho, soube de três colegas perfurados com seringas em uma semana e ainda teve uma surpresa ruim: foi demitido, tendo cinco filhos para sustentar e um aluguel de R$ 300 para pagar. Ele não sabe o motivo da demissão.

Mas, isso não foi o suficiente para desanimar Wilson, que vem fazendo bicos de pedreiro desde agosto sem perder o sorriso no rosto. “Tem gente que tem tudo na vida e não consegue sorrir quando algo começa a ir mal. Eu não tenho carro, moto e nem casa própria. Só uma bicicleta e minha família. Essa é a minha felicidade”, conta.

“Sem dinheiro a gente não sobrevive, mas tem muita coisa mais importante na Terra do que isso. É gostoso entrar num lugar e ver as pessoas sendo gratas comigo. Não tem grana que compre a gratidão e a humildade, coisa que muito ricaço não tem por aí”, completa.

O coletor de lixo lembra que corria cerca de 86 quilômetros diariamente e afirma que não existe catador triste no Brasil.

“Diferente de muitas outras profissões, não dá pra trabalhar mal-humorado correndo tanto todo dia. Tem que dormir, comer e descansar bem, senão não dá para aguentar o outro dia. Tenho orgulho e saudade do que eu fazia, era leve”, diz.

‘O carinho das crianças fazia eu ganhar o dia’

O bom humor de Wilson cativou a garotada ao longo de sua carreira. Ele recorda que Luidi, de quatro anos, fez um aniversário com o tema caminhão do lixo. “Saí tarde do serviço e não consegui ir à festa. A mãe dele disse que o menino foi até dormir porque eu não fui”.

A tristeza do pequeno, no entanto, foi recompensada quando, no dia seguinte, Wilson parou na casa dele durante o expediente para presenteá-lo. “O garoto estava cochilando, com febre, e o abracei bem forte. Ele melhorou depois que me viu”, relembra.

Além de Luidi, o ex-coletor fez amizade com Vinicius, também com quatro anos de idade. “Eles pedem presente, brinquedo… não importa se é filho de rico, milionário, pobre ou mendigo. É impossível não acordar cedo feliz para trabalhar”, confessa.

Um outro caso que emocionou usuários do Facebook, por meio de um vídeo, aconteceu em Taubaté. Garis passavam pelo bairro Jardim Jaraguá quando o pequeno Israel abraçou e presenteou cada um.

Maycon Diego dos Santos, um dos coletores amigos do garoto, afirma que o menino sempre fica eufórico ao ver os trabalhadores desde o ano passado.

Ele explica que isso é um respiro no dia a dia, uma vez que nem todos respeitam a sua profissão. “Já teve casos em que eu pedi um copo d’água e negaram por acharem que aquela não era a minha hora para isso”, lamenta. “Tem gente que sequer dá bom dia ou não pega na minha mão por nojo”, completa. 

Maycon e colegas cativaram o garoto e ato causou comoção nas redes sociais.

Maycon e colegas cativaram o garoto e ato causou comoção nas redes sociais. Foto: Facebook / Universe Extremo

O coletor de lixo José Raimundo da Silva se emocionou com o episódio. “Sou gari e me emocionei quando assisti ao vídeo. Costumamos ser desprezados e as pessoas sentem nojo por andarmos sujos, mas me orgulho por ser de onde eu tiro o sustento da minha família”, escreveu na postagem.

Outra internauta destacou a importância de se prezar pela igualdade e respeito. “Parabéns a família por dar uma educação perfeita ao garoto, sem preconceitos. Somos todos iguais independentemente da profissão, cor da pele, religião ou sexualidade”, elogiou.

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