Alison dos Santos sonha em colocar São Joaquim da Barra no pódio em Tóquio

Piu quer colocar São Joaquim da Barra, onde nasceu, e o nome de sua família no mapa olímpico. Por isso, o Piu que todos conhecem na cidade de pouco mais de 50 mil habitantes do interior paulista reassumiu o nome de batismo quando virou atleta dos 400 metros com barreiras. Como Alison dos Santos, ele é uma das principais esperanças de medalha para o país nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

– Quero dar orgulho pra minha família e minha cidade, quero levar o nome da minha cidade, da minha família pro mundo. Mostrar que o moleque do interior criado de maneira humilde, veio de um projeto social, chegando nos Jogos Olímpicos brigando por alguma coisa, mostrar que existem muitos talentos no interior, se procurar, há muitos “Pius” por aí – disse o atleta de 20 anos.

Alison dos Santos, o Piu, é esperança de medalha para o Brasil nos 400m com barreiras em Tóquio — Foto: Time Brasil

Alison dos Santos, o Piu, é esperança de medalha para o Brasil nos 400m com barreiras em Tóquio — Foto: Time Brasil

O apelido “Piu” surgiu no projeto social de São Joaquim da Barra que o inseriu no atletismo, em 2014, quando tinha 14 anos. Por ser parecido fisicamente com outro atleta chamado Piu e ter negado a semelhança, o apelido pegou, claro.

A mesma resistência ao apelido Piu, Alison mostrou também em relação ao atletismo no começo. Na época, sua preferência era o judô.

– Se eu fosse pro atletismo e gostasse eu ia ter que optar por um ou por outro, na época eu fazia judô e estava tranquilo. O projeto social onde comecei o atletismo, eles vão fazer captação na escola, eles vão apresentar o esporte, falar do que ele pode trazer e tudo mais, e um certo dia, eles foram falar sobre o esporte na minha sala. De primeira não me interessou tanto, mas eles tiveram muito interesse em mim, me chamaram de canto e me chamaram pra treinar, falaram que eu poderia ter talento, pelo meu tamanho e eu disse que iria, mas fiquei enrolando eles por uns quatro, cinco meses. Aí eles me viram na rua e me chamaram de novo e pensei “eu devo ser bom nisso, pra eles estarem me chamando assim, devo ser muito bom nisso”. Aí fui lá e dei uma oportunidade pro esporte, pra conhecer, fui pegando gosto e estou aí até hoje – explicou o joaquinense de 2 metros de altura.

Piu na infância com a irmã em São Joaquim da Barra: família sempre deu força — Foto: Arquivo Pessoal

Piu na infância com a irmã em São Joaquim da Barra: família sempre deu força — Foto: Arquivo Pessoal

Superar barreiras sempre esteve presente na vida de Alison. Com menos de um ano de idade, sofreu um acidente em sua casa com uma panela de óleo quente, que deixou cicatrizes em sua cabeça, no braço esquerdo e no peito. Ao começar no atletismo, as marcas o afetavam, a timidez o atrapalhava, mas a convivência no projeto social e sua aptidão para o esporte o fizeram pular o primeiro obstáculo.

– Eu era muito introspectivo, não falava muito, tinha vergonha de tudo, tipo, na época eu não conhecia ninguém que treinava e eu não queria ir sem conhecer ninguém. Aí um amigo começou a treinar e fui com ele, achei divertido, muito nobre, muito fácil, fácil na questão de não precisar muitas coisas, só vai treinar e pronto. Eu sou muito competitivo, quando comecei a treinar, eu perdia pra todo mundo, aí eu falei, agora eu comecei isso aqui e vou treinar e depois que eu ficar bom nisso aqui eu vejo o que faço da minha vida, mas eu preciso ganhar do povo aqui, então pensei que era uma questão de honra, comecei a treinar por ser muito competitivo e fui pegando amor e gosto pelo esporte, foi mudando minha vida, fui gostando do esporte e das pessoas – comentou.

Alison dos Santos é atleta do Pinheiros desde 2017 — Foto: Ricardo Bufolin/CBAt

Alison dos Santos é atleta do Pinheiros desde 2017 — Foto: Ricardo Bufolin/CBAt

Logo Alison e sua treinadora, Ana Fidélis, perceberam que ele era melhor em provas de velocidade do que de fundo, e começou a empilhar medalhas nos 400m com barreiras. Com 17 anos, disputou provas no exterior e chamou a atenção do Esporte Clube Pinheiros, de São Paulo. Em um novo clube, mais estruturado, e sob comando do técnico Felipe Siqueira, Piu deu o salto para se tornar profissional.

– Fomos pelo treinador. Esse trabalho tem que pesar na decisão e achamos que era algo semelhando ao que fazíamos. Eu faço corrida com barreiras e tem muitos detalhes pra corrigir em uma pista de borracha, oficial. E quando eu morava no interior eu não tinha, foi um salto na minha evolução. [A pista em São Joaquim da Barra] era tipo um carvão, cheia de pedrisco e areia. A gente fazia milagre com aquela pista, a gente sempre fazia o que dava, mas pra quem faz provas de barreiras, não é o ideal. Mas o projeto social me deu uma base incrível, surreal e eu colho os frutos dessa base até hoje, agradeço muito as pessoas que trabalharam comigo, minha treinadora, eu, sinceramente, devo muito a ela, porque ela soube trabalhar comigo, ela soube respeitar as fases, soube o que fazer, trabalho impecável.

O salto na evolução ficou comprovado com as conquistas de Alison dos Santos a partir de então. Em 2018, foi terceiro lugar no mundial dos 400m com barreiras na sua categoria, foi também campeão sul-americano sub-23. Em 2019, chegou à final de sua prova no mundial de Doha, no Catar, e ficou em sétimo lugar. Há 19 anos um brasileiro não chegava à decisão dessa modalidade. No Pan de Lima, foi medalha de ouro e começou a quebrar recordes brasileiro e sul-americano em sequência. Mas a trajetória precisou ser interrompida por conta da pandemia do coronavírus.

Alison Santos levou o ouro no Pan de Lima, em 2019, e quer repetir feito em Tóquio — Foto: Wagner Carmo/Panamerica Press/CBAt

Alison Santos levou o ouro no Pan de Lima, em 2019, e quer repetir feito em Tóquio — Foto: Wagner Carmo/Panamerica Press/CBAt

Alison teve Covid-19, passou 2020 sem competir, mas quando retornou às competições, mostrou que nem a pandemia impôs barreira para sua evolução. No dia 9 de maio, nos Estados Unidos, o brasileiro completou a prova em 47seg68, superando o antigo recorde nacional de Eronilde Araújo (48seg04), que era de 1995. Na Diamond League, em 28 de maio, Alison dos Santos baixou ainda mais seu tempo, completando o trajeto em 47seg57. Ele ficou na segunda colocação na etapa de Doha.

Na corrida para alcançar a tão sonhada medalha olímpica, Alison dos Santos terá nos Jogos de Tóquio seu próximo desafio, que ele quer superar desde 2020, quando a Olimpíada foi adiada devido à pandemia.

– Eu estou ansioso desde 2019, estou com muita vontade. Em 2019 tivemos uma ótima temporada e íamos começar 2020, só que teve pandemia e resumindo, eu fiquei quase dois anos sem participar de nenhuma competição, muito tempo sem competir e eu já estava ficando louco, eu pensava “preciso competir, preciso competir”, ficava pensando muito nos Jogos. Estamos próximos, temos muito trabalho ainda e pouco tempo, estou muito ansioso, todos os atletas querem muito isso, sonham com isso, é uma competição muito bonita, é diferente, ficamos animados e querendo dar o melhor – disse Alison dos Santos, o Piu de São Joaquim da Barra, que está prestes a conseguir o maior salto de sua carreira ainda jovem carreira.

– Eu tinha vontade de ir [aos Jogos Olímpicos], mas não sabia que eu chegaria no nível que estou hoje. Achei que ia só correr, não pensei que teria nível técnico pra concorrer, mas as coisas aconteceram e hoje temos nível técnico pra sonhar com alguma coisa – concluiu.

 

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