Em 4 meses, Ribeirão Preto dobra número de mortes por Covid com piora da pandemia

O número de mortes por Covid-19 em Ribeirão Preto (SP) dobrou em quatro meses. Nesta segunda-feira (17), a cidade ultrapassou duas mil mortes em uma velocidade 2,5 vezes mais rápida do que quando atingiu o primeiro milhar de vítimas.

De 26 de março de 2020, data do primeiro óbito, a 15 janeiro de 2021, data da milésima morte, foram 297 dias. Agora, 122 dias, segundo dados do boletim epidemiológico da Secretaria Municipal de Saúde.

No total, a cidade tem 2.008 óbitos, sendo 1.106 vítimas homens e 902 mulheres, e 75.265 infecções pela doença. Nas unidades de terapia intensiva (UTI), são 93,27% de ocupação até às 17h55 desta segunda, com 291 internados em 312 vagas, de acordo com a plataforma leitoscovid.org.

Unidade de terapia intensiva do Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto (SP) — Foto: EPTV/Reprodução

Nesta segunda-feira, a Secretaria Municipal de Saúde reconheceu um crescimento acentuado na chegada de novos casos graves nas últimas 72 horas em Ribeirão Preto.

Segundo a pasta, no sábado (15), os dois polos Covid tinham 92 pacientes internados, com 13 intubados. Já nesta segunda-feira, o número de pessoas com necessidade de ventilação subiu para 27. A pasta garantiu que todos estão recebendo atendimento adequado.

“Evidentemente, este aumento tem relação com o aumento da circulação das pessoas e o número de aglomerações evidenciados nos últimos 15 dias”, afirmou o comunicado.

Aceleração

Em dez meses, entre a primeira morte confirmada e a milésima, a média era de três a quatro óbitos por dia em Ribeirão Preto. A velocidade aumentou em 2,5 vezes agora, em quatro meses, com oito a nove vítimas diárias da pandemia. Somente em 2021, são 965 vidas perdidas.

Para o infectologista do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HC-RP) e do Hospital Santa Lydia, Lucas Agra, a doença progrediu em velocidade exponencial por conta do desrespeito à quarentena e devido à circulação das novas cepas da doença, mesmo a cidade sendo, segundo ele, uma das que mais faz testes de Covid nos moradores em um menor espaço de tempo.

“Temos o Hospital das Clínicas que aumentou de forma impressionante o número de leitos para pacientes Covid e o Hospital Santa Lydia, onde a prefeitura ajudou a aumentar em quatro vezes o número de leitos. O uso de protocolos falhos com medicamentos que não funcionam foi a exceção na cidade, mas o grau de circulação e desrespeito às medidas de distanciamento foram visíveis durante toda a pandemia”, avalia.

Em Ribeirão Preto, a Secretaria Municipal de Saúde contabiliza o óbito com base no mês em que a vítima teve o diagnóstico positivo para a doença. Dessa maneira, março de 2021 foi o pior período da pandemia na cidade, com 386 mortes até o momento.

Este ano também tem o terceiro pior mês da pandemia, fevereiro, com 209 mortes. É a mesma quantidade registrada em junho do ano passado, quando houve uma piora nos índices até julho, que totalizou 244 vítimas.

Aumento em 6 faixas etárias

O boletim da Prefeitura também aponta uma mudança no perfil de mortos por Covid-19 entre o primeiro e o segundo ano de pandemia em Ribeirão Preto.

Houve aumento de vidas perdidas em seis das 12 faixas etárias listadas pela Secretaria Municipal de Saúde.

A maior elevação ocorreu entre 40 e 49 anos. Em dez meses de 2020, 36 pacientes dessa idade morreram. Em pouco mais de cinco meses de 2021, houve o registro de 78 mortes. Aumento de 116.6%.

Na sequência proporcional é possível observar, também, aumento de 61,05% na faixa etária de 50 a 59 anos, passando de 95 óbitos em todo o ano de 2020 para 153 de janeiro a 17 de maio de 2021.

Adultos de 30 a 39 anos também morreram mais em 2021. O crescimento no número foi de 40,74%, passando de 27 no ano passado para 38 neste ano.

Por fim, houve aumento entre 60 a 69 anos (233 para 251), 10 a 19 anos (0 para 2) e 5 a 9 anos (1 para 2). Na faixa entre 20 a 29 anos, são cinco mortes em cada ano.

Para o infectologista do Hospital das Clínicas, Valdes Bolela, houve uma percepção de elevação de pessoas jovens internadas com a doença desde fevereiro. Algo que, segundo ele, era menos comum no ano passado e pode explicar a mudança de perfil das vítimas da pandemia na cidade

“Ainda continuamos tendo mortes de pessoas idosas, pessoas com comorbidades. Isso predominava no ano passado. A maioria absoluta era nesses grupos. O que mudou nesse ano é uma parcela dos pacientes graves é jovem, às vezes com comorbidade e às vezes sem comorbidade nenhuma”, diz.

 

Escalada de casos

Os primeiros cinco meses de 2021, além da crescente nos óbitos, também são marcados pela subida de casos positivos para a Covid. São 33.316 no total, equivalentes a 44,26% de todas as infecções na cidade desde março de 2020.

O pior mês em relação à confirmações de caso desde o início da pandemia é desse ano: março, com 9.362 testes positivos. Essa elevação, de acordo com o infectologista Lucas Agra, reflete no número de mortes.

“A doença progrediu em velocidade exponencial. Infelizmente com aumento da taxa de óbitos. Ou seja: mais doentes, mais óbitos”, afirma.

O mês de março também registrou recorde Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), com 975 diagnósticos, seguido por abril, com 932.

Ao todo, em 2021, são 3.217 confirmações de SRAG. O número já é maior do que o registrado em 2020 e representa 50,43% do total.

Quem tem a síndrome, na maioria das vezes, apresenta quadro de falta de ar e queda de oxigênio no sangue e dificilmente escapa da internação, elevando a ocupação nas UTIs.

“Houve piora do ambiente de trabalho. As condições muitas vezes são limitadas. Os insumos são finitos e vivemos definitivamente o colapso do sistema de saúde. Não há mais profissionais capacitados para cuidar de pacientes graves”, desabafa o infectologista.

 

Profissionais de saúde durante atendimento em leito de UTI Covid em Ribeirão Preto, SP — Foto: Reprodução/EPTV

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