Poluição causada por queimadas aumenta em Ribeirão, aponta a USP

Pesquisadores do Laboratório de Química Ambiental da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, que desde 2004 estudam a qualidade do ar na cidade e na região, alertam para o aumento da poluição causadas pelas queimadas na cidade e na região.

Em amostra de material particulado coletada no dia 19 de setembro deste ano, a concentração média de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) — compostos químicos produzidos durante as queimadas, muitos deles de elevado potencial carcinogênico e mutagênico — foi sete vezes maior que a média encontrada nos meses anteriores. Os dados são de uma análise da doutoranda Caroline Scaramboni, realizada sob orientação da professora Lúcia Campos, coordenadora do laboratório.

Segundo a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que esse índice não ultrapasse o valor de 1, a partir de uma equação numérica calculada sobre a concentração de vários componentes tóxicos. Com o índice 1, significa que há um aumento no risco de câncer de pulmão de 8,7 casos para 100 mil habitantes.

“Em Ribeirão Preto esse índice chegou a ser igual a 19, isto é, tivemos um aumento no risco de câncer de pulmão que chegou a 166 casos a cada 100 mil habitantes”, conta a professora Roberta Urban, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que participou das análises.

Testes de toxicidade realizados em parceria com o professor Daniel Dorta, também do Departamento de Química da FFCLRP, demonstraram que o material particulado inalável coletado em Ribeirão Preto pode prejudicar o metabolismo de células de fígado, além de causar dano no DNA dessas células, o que mostra seu potencial tóxico. “Esse material orgânico que inalamos e que vai parar na corrente sanguínea é metabolizado pelo fígado, daí a importância de estudarmos essas células em particular”, diz o médico, em entrevista ao Jornal da USP.

No dia 18 de setembro, um incêndio de grandes proporções atingiu a Zona Sul de Ribeirão Preto no início da tarde. O fogo chegou próximo aos condomínios residenciais na região de Bonfim Paulista e assustou os moradores.

Mais poluentes

E não foram somente poluentes HPAs que os pesquisadores do Laboratório de Química Ambiental encontraram na atmosfera de Ribeirão Preto. “Como muitos desses gases e partículas produzidos pelas queimadas são solúveis em água, pode-se inferir a qualidade do ar baseado na composição química da água de chuva”, explica Lúcia Campos, em entrevista ao Jornal da USP.

Em 20 de setembro, após mais de 100 dias de estiagem, a análise da água de chuva feita pelo mestrando Jacques Florêncio, também orientado pela professora Lúcia Campos, mostrou concentrações de espécies ácidas derivadas de óxidos de enxofre e nitrogênio cerca de sete vezes maiores que a média histórica, que começou a ser registrada em 2004, em Ribeirão Preto.

Já com relação aos ácidos orgânicos, os índices foram até 13 vezes maiores. Já a amônia, que também é emitida durante a queima de vegetação, foi observada uma concentração 18 vezes maior que a média histórica.

A professora diz, ainda, ter sido possível inferir que, além da emissão direta de etanol por veículos e pelas usinas de processamento de cana, também há emissão de etanol no ar durante as queimadas, por conta da queima da biomassa. “As reações que ocorrem na atmosfera a partir do etanol levam à formação de aldeídos, compostos que têm elevada toxicidade.”

A professora conta que gases e partículas que poluem a atmosfera têm como principal origem quatro grandes atividades humanas: os processos industriais, a produção de energia, as emissões veiculares e a queima de biomassa (as queimadas).

Uma vez na atmosfera, os contaminantes sofrem uma série de transformações químicas e físicas, interagem com outras partículas, são dispersos para camadas mais elevadas da atmosfera e viajam por longas distâncias. Uma pequena parte desse material é removida da atmosfera pela interação com superfícies, como árvores e construções, e outra parte, também pequena, cai no solo por gravidade.

Na semana das pesquisas feitas pelo laboratório USP Ribeirão, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) registrou índices de qualidade do ar muito ruins devido à grande quantidade de partículas na atmosfera, e a semana toda foi marcada por elevado número de focos de incêndio na região de Ribeirão Preto.

Imagens de satélite evidenciaram focos de calor, que são indicativos de queimadas, em diversos pontos do Estado de São Paulo. O monitoramento do  Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) chegou a contabilizar 538 focos de calor no estado. No período de 1º a 14 de setembro, São Paulo teve 1.520 focos de calor, quase o dobro do que foi registrado durante todo o mês de setembro de 2019.

Prevenção e saúde

A professora Lúcia enfatiza que as queimadas devem ser prevenidas e combatidas com eficiência, com políticas de educação nas escolas, nas mídias e com campanhas assertivas na época das secas. “Praticamente 100% das queimadas são provocadas pelo homem, seja de forma intencional ou não.”

Ela cita a cultura de queima do lixo no quintal, que pode gerar uma fagulha que levantada pelo vento pode chegar a um lugar de mata e iniciar um incêndio, a bituca de cigarro jogada inadvertidamente nos acostamentos das estradas e ainda o churrasquinho na beira do rio. “Isso sem falar no incêndio intencional.”

A professora reafirma aquilo que outros cientistas têm alertado: os eventos climáticos extremos serão cada vez mais recorrentes por causa das mudanças climáticas.

E a fumaça produzida pelas queimadas contém grande quantidade de material particulado que, ao ser inalado, pode levar à irritação nas vias aéreas e sintomas como tosse, broncoespasmo e dificuldade de respirar, em especial para quem já tem problemas respiratórios. “Outro fato é que as queimadas liberam no ambiente grande quantidade de monóxido de carbono que, ao ser inalado, pode se ligar à hemoglobina do sangue, dificultando o transporte de oxigênio às células, podendo ocasionar sintomas como tonturas, desmaio e até morte, dependendo da quantidade inalada”, explica o médico pneumologista Luís Renato Alves, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.

 

*Com informações do Jornal da USP/ Rose Talamone

 

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