Rio Grande do Sul é líder nacional em exportação de calçados

O resultado da indústria calçadista no primeiro bimestre do ano anima a economia nacional e interfere sobre a geração de renda e empregos no Vale do Taquari. Com a exportação de 27,5 milhões de pares, o segmento movimentou mais de R$ 1 bilhão no período. É o que mostra o diagnóstico feito pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçado (Abicalçados).

Na comparação com janeiro e fevereiro do ano passado, o volume de pares embarcados cresceu 40%. Já em faturamento, o avanço foi mais expressivo, com alta de 73% no montante negociado em dólares.

No bimestre, o Rio Grande do Sul foi o líder nacional no ranking das exportações, com 43,5% de todos os pares vendidos ao exterior. Foram mais de 6,9 milhões de pares, o que gerou uma receita de US$ 91 milhões.
Na comparação com o mesmo período de 2021, o desempenho da indústria calçadista gaúcha foi de avanço de 60,7% no total de pares e de 76% em termos de volume financeiro.

A partir das informações, a Abicalçados considera que o setor teve o melhor início de ano desde 2011. “É o ano da recuperação. A demanda internacional voltou a crescer e há uma tendência de continuidade”, diz o presidente-executivo da associação, Haroldo Ferreira.

O principal destino das exportações é os Estados Unidos (EUA), com 4 bilhões de pares exportados. Em função da guerra comercial com China, há uma tendência de aumento na procura pela produção brasileira pelo mercado norte-americano.

“Estamos no limite da produção”

Proprietário de um ateliê de calçados em Santa Clara do Sul, Edson Luiz Thomas, confirma o movimento de retomada na indústria calçadista. “Estamos em um cenário positivo. Com crescimento de 70 a 80% nos pedidos.”

De acordo com ele, o patamar atual alcançou níveis de antes da pandemia. “Hoje temos encomendas até agosto. Quando chegou o coronavírus, trabalhávamos com prazos bem menores, de 10 a 15 dias.”

Essa perspectiva de médio prazo à produção encoraja a indústria, diz. A dificuldade hoje é diferente da vista há pouco mais de um ano. Em vez de demitir, há mais oferta de vagas. “Estamos no limite da produção. Nem conseguimos mais receber encomendas, pois não há como ampliar. Temos vagas de trabalho aberta e não há gente para contratar.”

O ateliê produz em média 2,5 mil pares de calçados por dia. São 140 funcionários. A empresa atende indústrias calçadistas e tem parte da produção vendida à Argentina.

Conforme dados do Sebrae, o Vale do Taquari tem 299 empresas calçadistas cadastradas. São indústrias de acabamento em couro, fabricação de partes de calçado de qualquer material e também de compostos sintéticos.

Olho no mercado interno

Proprietário de uma fábrica de calçados em Teutônia, Cesar Lisot, concentra esforços para atender o mercado nacional. Conforme dados da Abicalçados, ainda que haja crescimento nas exportações, o consumo dentro do país é responsável por absolver mais de 80% da produção.

Ainda assim, o cenário é de mais otimismo, sem perder a consciência de todo o período de prejuízos. “Recuperamos muito dos negócios perdidos durante a pandemia. Mas ainda vai demorar para o setor se recuperar”, estima.

De acordo com Lisot, o comportamento do mercado nacional dá mostras de melhoria no cenário. “O primeiro semestre tende a ser positivo. Como trabalhamos com moda, a partir de julho, agosto, é outra tendência. Não sabemos como o mercado vai se comportar.”

ENTREVISTA – Priscila Linck, economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da Abicalçados

“O diferencial da produção de calçados no país é a qualidade”

Os dados com relação à exportação são suficientes para afirmar que o setor de calçados vive um momento de retomada?

Priscila Linck – Observamos que a exportação tem sido o vetor de sustento da produção após os piores momentos da pandemia. O que chamamos de coeficiente de exportação, que significa que há uma parcela maior para a venda externa. Esse tem sido o motor de crescimento nos últimos meses, com uma taxa maior da produção indo para o exterior.
Ainda assim, a venda para o mercado internacional ainda é uma parte menos representativa às empresas do país. Em torno de 13% de tudo que é produzido vai para fora do Brasil.

– Quais as características do setor calçadista em termos de atender esses mercados?
Priscila – A demanda interna é grande e ele supre a necessidade das empresas. Por isso há uma destinação maior da produção para o cliente nacional, pois é possível exportar menos e ter uma grande produção.
No entanto, essa característica tem mudado nos últimos três anos, em especial após a chegada da covid-19. O que nos parece é que as empresas estão buscando mais opções para não depender só de um mercado.

– Por que o mercado internacional tem buscado mais produtos do país?
Priscila – Temos de ver o formato de negócio. Há empresas que terceirizam, que fabricam para grandes marcas, e outras que exportam a própria marca. Esse é o nosso maior volume de exportações, de marcas próprias. Os Estados Unidos tem puxado esse movimento, sendo o principal mercado. O que atrai é a qualidade. O diferencial da produção de calçados no país é a qualidade.

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